sexta-feira, 26 de outubro de 2012


A SENTINELA QUE FOGE


Paredes brancas
de um quarto hipotético
onde estou instalado.

Vejo através de sua indiferença
que não estou protegido de nada.
É sempre esse medo e essa ansiedade
a roubar-me a calma que não tenho.

Apenas alguns centímetros de argamassa
a me separar da vida que corre lá fora
com seus ruídos abafados e nítidos,
quando a eles se presta uma atenção nervosa.

Sinto que uma espécie de catástrofe se tece
no silêncio e vai acontecer a qualquer momento.
Devo portanto ficar acordado e atento
para não ser pego de surpresa e em pânico.

Mas uma tranqüilidade não se conquista
através de meios tão precários de defesa.
Preciso me dispor a sair e enfrentar o mundo
com seu exército de homens rudes à espreita.

Então saio com o desconforto de não fazer parte,
com uma fragilidade revestida só pelo escudo de si própria,
com um receio de ser ridículo só por me dispor a andar
e com a certeza de que não posso ser livre aqui
ou em qualquer outra parte onde nunca estive.

Areia (À Fragmentação da Pedra)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


“Milton Rezende é um poeta do desvelamento. Sua principal característica é enfrentar a objetividade ruidosa e dispersa das coisas, da rotina e arrancar do cotidiano um sentido novo, uma nova medida.
O autor adota uma postura reflexiva diante do mundo, do aparentemente comum misturado à condição humana. Desta forma evoca o aprofundamento aos temas básicos como a solidão, o amor e a morte”. (Editora Multifoco).

sábado, 19 de maio de 2012

http://paginacultural.com.br/literatura/textos-e-ensaios/
paginacultural.com.br
Milton Rezende é um poeta do desvelamento. Sua principal característica é enfrentar a objetividade ruidosa e dispersa das coisas, da rotina e arrancar do

domingo, 8 de abril de 2012


FLASHES DE UM COTIDIANO


Detenho-me diante da vida.
Não como faz o pedestre
no verde do trânsito, pois
há uma possibilidade
de atravessar ileso.
Detenho-me apenas e por fazê-lo
ela se esvai em minha dúvida.

Detenho-me diante de teus olhos.
Não como faz o oculista
na miopia do paciente, pois
há uma possibilidade
de receitar uns óculos.
Detenho-me somente pelo enigma
e assim perco-te de vista.

Detenho-me diante da morte.
Não como faz o religioso
na partida do irmão, pois
há uma expectativa
de vida eterna.
Detenho-me incrédulo
e por não acreditar
já não temo o vazio.

Detenho-me diante do amor.
Não como faz o homossexual
no convívio social, pois
há uma chance
de vencer os preconceitos.
Detenho-me para deter o medo
e na hesitação amanheço.

Detenho-me diante de mim.
Não como faz o homem
na transparência do espelho, pois
há uma possibilidade
de não se enxergar a si próprio.
Detenho-me sem fugir de mim
e por não saber forjar-me
todo esforço é inútil.

Detenho-me diante do tempo.
Não como faz o adolescente
na festa de debutantes, pois
há uma esperança
de vencer no tempo.
Detenho-me sem alegorias
e por não tê-las
o presente é trágico.

Detenho-me diante do silêncio.
Assim como fazem os animais mesquinhos,
que com seus ruídos soturnos
não quebram o silêncio da noite.
Fazem parte dele, ou antes, o completam.

O Acaso das Manhãs




sábado, 17 de março de 2012

HOME SWEET HOME

Pensei enumerar aqui
todos os meus endereços:
as ruas, as casas, os bairros
o sítio e as cidades mineiras.
Prédios, altos e baixos, áreas
de escape, espaços, córner neutro;
as lojas, os quintais, os bares
e todos os locais de trabalho
que eu freqüentei sem estar ali.
Mas já não me lembrava de
muitos deles – andei tanto e
não saí do estágio em que nasci.
Prefixos de telefones, mapas,
placas de carro, janelas, chaves,
portas, armários, quartos fechados,
as camas e os colchões onde dormi.
Vivi a minha vida sempre assim:
entre quatro paredes pintadas
ora de verde, de branco, de rosa
e infinidades de cores e situações.
Nunca me encontrei em nenhum
desses lugares e o meu lar
não existe sequer em mim.

Uma Escada que Deságua no Silêncio


domingo, 4 de março de 2012

O TRABALHO DOS DIAS




Não posso dizer da vida
e de sua quantia, pois
não tenho como me reportar
a uma experiência anterior.

A vida, em função disto,
talvez seja mais símbolo
e espaço do interdito do
que o vivido propriamente.

Refugia-se em mim, no escuro
do verbo existir, a ausência
de sentido num cotidiano
excessivamente meu e nulo.

Do livro: Inventário de Sombras