quarta-feira, 30 de abril de 2014



“Agora o autor se mostra por extremos: uma parte deste livro é de poemas, digamos, antigos e a outra são os poemas mais recentes, escritos até o ano de 2006. Há casos em que ocorre um intervalo de vinte anos. Mas existe uma unidade no livro e essa unidade é o autor. Leia e comprove e faça essa viagem com ele, retornando à origem das coisas e vindo até próximo dos dias atuais. Mas não recue e nem avance muito. Se coloque no meio, no intervalo exato dessa poesia que tanto surpreende. E a vida será sempre um pouco diferente: para mais ou para menos, como se fosse uma estatística de sonhos e pesadelos intermitentes”.

Por Dierval


sábado, 26 de abril de 2014



            Milton Rezende é um poeta do desvelamento. Sua principal característica é enfrentar a objetividade ruidosa e dispersa das coisas, da rotina, do comum e arrancar um sentido novo. Em Uma Escada que Deságua no Silêncio, o objeto limado pelo autor é o território bruto e confuso da memória.
            Dessa forma, o autor evoca o aprofundamento aos temas básicos da condição humana: a solidão, o amor e a morte. Embora recorrentes, é verdade, no caso de Uma Escada que Deságua no Silêncio não pecam pela banalização ou gratuidade sentimentalista; dialogam com emanações da memória de forma dialética e, por vezes, produzem impasses. Nessa batalha o autor atinge o limite possível da expressão poética encarnando densidade, conteúdo e tratamento estético conciso.

Por Marcos Vinícius Almeida

sexta-feira, 25 de abril de 2014

"Milton Rezende, 44, ervalense, depois de muito pesquisar e após dois anos de trabalho ininterrupto concluiu e agora publica o 1º livro sobre a história de Ervália, município situado na Zona da Mata Mineira.
Trata-se de um ensaio histórico/literário amplamente ilustrado com fotos, quadros, desenhos, mapas, croquis e que, ao longo de suas 300 páginas, traça um painel abrangente (ainda que introdutório) de sua terra natal desde os seus primórdios, no século XVII até os dias atuais.
O livro, que traz a apresentação do poeta e tradutor Ivo Barroso, também filho da terra, conta ainda com o patrocínio da prefeitura local e de duas empresas sediadas em Santa Catarina – SC e pertencentes aos irmãos, Gilmar e José Élson, eles também ervalenses de nascimento e coração.
O autor já publicou quatro livros de poemas: O Acaso das Manhãs, Areia (À Fragmentação da Pedra), Inventário de Sombras e A Sentinela em Fuga e Outras Ausências e esta é a sua primeira incursão pela prosa.
A presente obra encontra-se dividida em capítulos, anexos, iconografia, apêndice e faz referências ao folclore local e seus personagens inesquecíveis. Mescla passado e presente e tenta projetar o futuro, numa permanente busca de uma síntese meio que impossível, mas que é continuamente tentada pelos homens.
Neste livro encontra-se ainda uma pequena antologia de poemas sobre Ervália e escritos por autores ervalenses de diferentes épocas e estilos. Há também letras de música e o vento que sopra do Monumento ao Santo Cristo, numa coreografia de coqueiros".


quinta-feira, 24 de abril de 2014


“Em Areia (À Fragmentação da Pedra), o poeta Milton Carlos Rezende prossegue em seu estilo de uma forma contundente e reflexiva. São poemas que buscam resgatar, ao menos em parte, os estilhaços do ser e re/compor a unidade (aparente) da pedra. Mas o poeta sabe que a perfeita junção dos elementos nunca será possível, e apenas tenta torná-la plausível em meio ao seu deserto de areia”.

Atômico

Nossos filhos nascem cegos
pela poeira do nosso tempo.
Nós ainda enxergamos
porque já entendemos o mundo
a partir da poeira que há nele,
e que não nos incomoda muito.

quarta-feira, 23 de abril de 2014



“Milton Carlos Rezende estreia de forma brilhante com O Acaso das Manhãs. São poemas reflexivos de alto nível, nos quais o poeta investiga (com ironia) o cotidiano e os problemas do homem. Nessas reflexões (em que se incluem os poemas sobre o poema), o poeta jamais perde a consciência da precariedade da existência humana”.

A visita

De súbito a chuva cessou.
Ponho-me a escrever sobre ti,
criatura sem carne
que me visita.

Não sei de onde vens,
mas sempre chegas
nas horas mais extenuantes
de minha fuga.

Fecho portas e janelas
para não te permitir
livre acesso sobre mim,
que de cansado me basto.

Mas tu me vens sem ser chamada
e mesmo sem chegar em forma clara,
sei que és minha consciência,
e te incorporo.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Bule · 2.129 curtiram isso há 4 horas · OS SAMAMBAIAS CHORONAS (Parte III)* ̶ [MILTON REZENDE] Algumas pessoas me perguntam sobre o meu processo de criação. Não sei bem o que dizer, mas digo que três fatores são essenciais: método, disciplina e solidão. Geralmente elas concordam com os dois primeiros itens e me questionam, sempre, quanto ao terceiro. Digo-lhes que este é o décimo terceiro livro que escrevo ou do qual participo e que, com exceção dos livros de poesia, que são a maioria e que é algo inexplicável, os demais livros, em prosa, seguem este protocolo. É claro que depois do Fausto ter entrado em minha vida e ter roubado as minhas histórias ou parte delas, alguma coisa mudou, mas a essência permanece a mesma. Eu diria que sou um escritor de feriados prolongados, quando a casa está vazia e você pode então se exercitar no método, na disciplina e na solidão que já então é intrínseca. No meu caso, especificamente, conta o fato de eu e minha família estarmos deslocados no espaço geográfico, bem como os meus vizinhos mais próximos, que também não são daqui. Não tenho parentes e pouquíssimos amigos na cidade onde moro. Nos feriados, cada um caça o seu rumo e o meu rumo como é distante ou inexistente, permaneço aqui entre ovelhas de sonhos que cultivo em silêncio. Não que eu quisesse, sempre, poder ir para a minha cidade natal. Até porque, presentemente, eu não gostaria de morar lá. Mas ela é sempre uma referência, um espaço a se conquistar, como aquele antigo amor que você sabe que nunca será seu e que não obstante nunca deixa de te des/nortear a vida. Outro dia, num show de rock que eu e minha banda imaginária fizemos em nossa cidade, alguém da platéia gritou que éramos o que de melhor havia e eu retruquei, do palco onde eu estava então, que agradecia os seus elogios superlativos, mas que na verdade eu não passava de um bêbado. E nisto consiste o meu método e a minha disciplina: nos feriados prolongados, quando todos viajam, tranco-me em casa, não sem antes me abastecer de cervejas, carnes, cachaças e filmes pornográficos. A literatura e a música precisam ser reais, mas o sexo pode ser virtual. Durante esses três ou quatro dias geralmente eu não ponho o focinho para fora da caverna. Tranco tudo e é preferível que o telefone e a campainha não toquem, como de resto não tocam mesmo, para que eu mantenha a minha disciplina solitária. Como escrever, por exemplo, um romance com a televisão ligada e com conversas e pessoas circulando pela casa? O recolhimento, mais do que o silêncio, é fundamental, assim como é fundamental o egoísmo no ato de escrever e que cada coisa esteja no seu devido lugar. Então, entre uma cerveja e outra eu escrevo. Entre uma cachaça e outra eu escrevo. Entre um orgasmo e outro eu escrevo. Entre um alimento e outro eu escrevo. Sem ter varrido a casa, sem ter lavado a louça, sem ter tirado a poeira dos móveis, sem ter lavado a roupa suja, sem ter desentupido a pia da cozinha, sem ter passado a roupa da semana anterior, sem ter lavado os banheiros, sem ter passado pano molhado no piso, sem ter cozinhado o feijão, sem ter vivido o que minimamente se entende por vida, sem ter visto ou falado com ninguém sequer ao telefone. Preso ao abismo da tela do computador, desvinculado do mundo e alheio a tudo o que seja externo ao desespero e às lembranças e à memória de um mundo afinal inexistente. No entanto é fundamental que se tenha pássaros cantando e vasos de flores e peixes no aquário e montanhas verdes que se estendam através da paisagem e que essas montanhas sejam circundadas de árvores. E que os ônibus passem na estrada ao longe, recortada pelo ângulo da janela e que não haja ruídos nem vozes de gente. É claro que a solidão, a despeito do que se produz ou do que se deixe de produzir, cobra o seu alto preço e a morte é um medo permanente e o sono escasso e a fome negligenciada, assim como o corpo e a alma igualmente relegados a um plano secundário e tantos outros inconvenientes, de tal modo que sorrio sempre e com alívio quando afinal ouço a chave no cadeado do portão e Rita de C. sobe pela escada da rotina afinal restabelecida. Mais uma vez fui salvo de mim mesmo. * Parte I (Feliz Natal): http://migre.me/hPnt7 * Parte II (Horóscopo): http://migre.me/hTOIM [MILTON REZENDE – Ervália – MG (1962). Atualmente reside em Varginha - MG. Obras:“O Acaso das Manhãs” (Edicon, 1986), “Areia (À Fragmentação da Pedra)” (Scortecci, 1989), “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução” (Templo, 2006), “Uma Escada que Deságua no Silêncio” (Multifoco, 2009), “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências” (Multifoco, 2011), “Inventário de Sombras” (Multifoco, 2012), “Textos e Ensaios” (Multifoco, 2012) e “O Jardim Simultâneo”(Penalux, 2013). Possui inéditos os livros: “Mais uma Xícara de Café” e “A Magia e a Arte dos Cemitérios”. Blog do autor: http://estantedopoeta.blogspot.com.br/] Curtir · Comentar Allyne Fiorentino curtiu isto.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Bule compartilhou um link. HORÓSCOPO (Parte II) * – [MILTON REZENDE] Outro dia, numa conversa sobre velhos e asilos, descobri que Rita de C. também é formada em psicologia e parte do seu encanto vem daí, do volume de conceitos e fundamentos que possui, como adiposidades sexuais. Um dia ainda pretendo me meter entre suas nádegas e aprofundar meu conhecimento sobre tatuagens, quando ela estiver viúva. Antes, em seu consultório, ela me dirá se devo dar um tratamento literário às minhas patologias ou se devo considerar minha literatura como patológica. Francisco foi um tolo quando se enveredou pelo misticismo como forma de justificar os seus atos. Quis ver em tudo a mão suave do destino e deu de querer ler e acompanhar seu horóscopo. Ninguém comete um equívoco sem um motivo transcendental para si mesmo. Chegou até a colecionar previsões que endossassem suas atitudes, conforme ele me contou depois. Um dia o encontrei, bêbado e estropiado, com um pedaço de papel na mão. Uma folha arrancada de um caderno espiral cheia de anotações extraídas de jornais sobre o seu signo. Cobrem um curto período, não datado, em que ele diariamente acompanhava e anotava, montando um pequeno texto com vários e diferentes enxertos dessas previsões que, segundo ele, justificavam plenamente a decisão a ser tomada. Com isto julgou estar no caminho certo e quebrou a cara e agora me exibia o papel de sua ruína. Não vejo muita unidade nesse amontoado de frases e nem posso compreender como alguém possa ter embasado nelas uma decisão que mudaria o curso da sua vida. Ao invés da mão suave do destino ele encontrou o braço forte da desgraça. Coisas da vida e azar o dele que não leu A Cartomante. Transcrevo a seguir, a título de curiosidade, as anotações astrológicas e zodiacais do meu desafortunado amigo. “Na vida amorosa ou na profissional, podem surgir situações de prova ou desafio. Aproveite para treinar sua capacidade de funcionar sob estresse. Cabeça fria e objetivos definidos serão o seu escudo. A vitória acompanha quem tem melhor controle sobre si mesmo. Chega um momento na vida em que não dá mais para preservar as coisas como estão e que, correndo-se o risco de magoar pessoas ou destruir instituições, é melhor fazê-lo do que continuar mantendo tudo como está. Tudo está melhor do que parece, não tenha dúvidas a esse respeito. Todo esse tumulto, que muitas vezes tem você no epicentro da situação, expressa, na verdade, a mão compassiva do destino acertando o passo de tudo. Pronto para voar, virar o mundo de pernas para o ar, se jogar nos braços do seu amor. Impulsos de se libertar, romper antigos grilhões, tudo aquilo que vem se arrastando há eras. Você está se abrindo, de lento caracol vira veloz borboleta. Tudo pode ser e acontecer: link-se com sua alma. Uma decisão arriscada pode ser tomada hoje. Num tema amoroso, vai funcionar melhor se você der o primeiro passo, agindo de maneira segura. A surpresa e a segurança do que deseja é que irão garantir que você não fique falando sozinho. E não seja impulsivo, para não provocar acidentes. Toda a energia que você precisa para ser feliz está disponível e é absolutamente gratuita. A vida não exige nada, oferece tudo. Exercite-se na arte de viver sem depender de objetos ou dinheiro para garantir felicidade. Quando a mente fica cheia de preocupações é mais difícil perceber os detalhes belos da vida. As preocupações podem até ser reais, mas nada obriga você a se prolongar nelas. Passe por elas o mais rapidamente possível. Dúvidas e incertezas do futuro, como será o amanhã? É, pode ser difícil mover-se em chão desconhecido, trilhar a imprevisibilidade, mas se você der uma boa olhada em sua história até aqui, verá que não é a primeira vez que coisas muito boas aconteceram e que você se descobriu mais forte quando a vida o surpreendeu. É imperioso que você renasça das cinzas daquilo que se acostumou a chamar de ‘sua vida’. De fato, ela não mais existe, é apenas uma reminiscência. A morte não é tragédia, é oportunidade de transformar tudo em algo melhor”. Tendo passado muitos dias deitado debaixo da cama a contemplar os estrados de madeira sob os colchões, penso que a essa altura eu já não passo de um rato emotivo. Preciso me dispor a levantar para trabalhar ou morrer ou morrer de trabalhar, o que para mim pouco importa, uma vez que sinto a obrigação de sair daqui com urgência. Quando me refugiei era um paraíso, mas um paraíso momentâneo como logo percebi. Com o passar do tempo comecei a descobrir estragos na madeira do estrado. Nódulos, cerne podre, pregos amassados e entortados de qualquer maneira. Também o colchão apresenta bolor aqui e ali e isso já me irrita assim como as teias de aranha e a sujeira que se acumula debaixo dos móveis. Me sinto só e vazio, mas se passo para a parte de cima da cama, sobre os colchões, aí então a minha solidão parece que se escancara, fico desprotegido do mundo, com o vento a zunir em minhas orelhas. Um rato emotivo coberto de fuligem, cheio de medos e vertigens, eis o que sou. Num paroxismo de pavor, salto de debaixo da cama e já me vejo numa velha estrada de terra vermelha que afinal desemboca no quintal da minha infância. Acho que fui, sem o saber, uma das vítimas de Fausto. Aquele vampiro de almas, acho que me sugou, pois me sinto vazio como um morto-vivo, um fantasma cujo reflexo é apenas uma sombra no espelho das águas turvas de um tanque que se romper um dia poderá destruir toda uma cidade inteira. Percebo que o meu caso é grave na medida em que não compartilho o convívio dos mortos nem tampouco sou notado pelos vivos e, com certeza, esse é o fim das vítimas de Fausto. Agora sou um peixe sem alma. Olho-me no espelho e vejo uma cara de peixe coberta de escamas. Um peixe feio, mais redondo que comprido, que outrora habitava o fundo do lago Baikal e que hoje chapinha nas poças de água barrenta formada pelos cascos dos animais que chegam às margens do tanque para saciar sua sede e deixam pegadas que logo são invadidas pelas águas adjacentes, como uma extensão desse tanque cujo formato é de um mapa invertido. Não me lembro de ter conhecido esse tal de Fausto, mas certamente nos encontramos em algum desses bares que eu freqüentava antes de transformar-me neste misto de rato e peixe que ora se esconde debaixo da cama, ora se chafurda na lama formada pelos cascos dos bois da antiga fazenda onde se pescava. O Fausto “comprou” a minha história de vida. Uma história banal é verdade, mas era minha e era a única que eu tinha. Hoje me encontro vazio e já faz muitos anos que não escrevo um poema. É, deve ter sido isso. E o canalha não me pagou nada. Parte I (Feliz Natal): http://migre.me/hPnt7 [MILTON REZENDE – Ervália – MG (1962). Atualmente reside em Varginha - MG. Obras:“O Acaso das Manhãs” (Edicon, 1986), “Areia (À Fragmentação da Pedra)” (Scortecci, 1989), “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução” (Templo, 2006), “Uma Escada que Deságua no Silêncio” (Multifoco, 2009), “A Sentinela em Fuga e Outras Ausências” (Multifoco, 2011), “Inventário de Sombras” (Multifoco, 2012), “Textos e Ensaios” (Multifoco, 2012) e “O Jardim Simultâneo”(Penalux, 2013). Possui inéditos os livros: “Mais uma Xícara de Café” e “A Magia e a Arte dos Cemitérios”. Blog do autor: http://estantedopoeta.blogspot.com.br/] http://migre.me/hPnt7 migre.me Curtir · Comentar · Compartilhar Meire Bastos, Madel Perna e outras 2 pessoas curtiram isso.