domingo, 8 de maio de 2016

O FRATERNO VERSO: SOBRE A POESIA DE MILTON REZENDE


Os poemas de Milton Rezende são uma dessas inesperadas descobertas que acontecem na vida, e como tantas coisas na vida, sua poesia se revela uma coisa à primeira vista e, depois, quando nos tornamos mais próximos, revelam outra natureza. Foi fundamental, para descobrir a segunda natureza da poesia de Milton, a leitura de Tempo de poesia: intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende, estudo de Maria José Rezende Campos, uma análise precisa e íntima dos poemas e do poeta.
Inventário de sombras foi o primeiro livro de poemas de Milton Rezende que eu li, e era o quinto publicado pelo autor. Eu fora ao evento de lançamento a convite de sua irmã, Maria José, minha aluna no curso Poesia brasileira: enfoques do Programa de Mestrado em Letras do Centro Ensino Superior de Juiz de Fora. Após comprar o exemplar, procurei um lugar do lado de fora para folhear o livro com um pouco mais de atenção, e logo o primeiro poema -“Situação”- me pegou. Os outros poemas, como “Árvores” e “O trabalho dos dias”, intensificaram a minha surpresa diante de um poeta de escrita tão refinada, familiar aos leitores da poesia moderna, mas ao mesmo tempo estranha aos leitores da atual poesia contemporânea.
No dia seguinte, ao encontrar com a Maria José na sala de aula, revelei: “Fiquei com a impressão de que o Milton escreve sobre o seu tempo do século XIX”. Percebo agora como essa frase não tinha o menor sentido, mas ela entendeu claramente, e completou: “Ah, então o senhor vai gostar de A sentinela em fuga e outras ausências”.
Os poemas de A sentinela em fuga confirmaram a impressão inicial: há nos versos de Milton Rezende um tom de desolação, às vezes uma morbidez, que o aproxima da poesia simbolista-decadentista (ou penumbrista), porém sem soar datado ou ultrapassado, são estranhamente contemporâneos.
Essa primeira natureza da poética miltoniana é revelada com muita acuidade intelectual por Maria José, nos capítulos “Milton Rezende e o processo de criação” e “Espectros do spleen em Milton Rezende”. A partir de uma apresentação panorâmica da presença fantasmática do Romantismo na poesia do século XX, por causa da “tendência ao subjetivismo e do individualismo evidenciado no uso da primeira pessoa”, a autora aproxima os poemas de Milton ao universo finisecular e soturno de Álvares de Azevedo e Augusto dos Anjos, para concluir: “Milton Rezende é um herdeiro da literatura ocidental produzida até agora. Seus poemas releem um tema caro ao romantismo, a morte. Sua paixão por cemitérios, velórios e ritos de morte é combinada à abordagem de temas contemporâneos e uma visão crítica da sociedade”.
A intertextualidade é uma práxis do poeta moderno, como reflete T.S. Eliot no fluente ensaio “Tradição e talento individual”, é um modo de o poeta atuar criticamente dentro do repertório da tradição, elaborando suas preferências e reelaborando os códigos poéticos tradicionais em uma dicção própria. Nesse sentido, Maria José argumenta, a modernidade do projeto poético de Milton reside em sua “autoconsciência reflexiva”, no qual a paródia intertextual de poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, potencializa sua crítica à modernidade e à “angústia existencial na sociedade de consumo”.
Nesse ponto, destaca-se o trabalho analítico de Maria José em localizar não só as influências presentes na escrita de Milton, mas principalmente em demonstrar, através de sua obra, o modus operandi da própria poesia moderna, na qual a paródia é uma forma crítica tanto para se incorporar a uma tradição consolidada quanto para atualizar determinados procedimentos formais. O make it new de Ezra Pound como princípio formal. No caso de Milton Rezende, um dos procedimentos atualizados é o recurso à heteronímia para explorar os limites da representação e da subjetividade do eu-poético após a modernidade. Logo é de capital interesse o capítulo “Heteronímia em Milton Rezende”.
Fernando Pessoa é uma presença forte na arquitetura poética de Milton, explicitada no poema “Pessoa”, dedicado a Alberto Caeiro, presente em Inventário de sombras. Porém, no mesmo volume, encontramos outros exemplos menos explícitos. Façamos uma comparação entre estes versos:



Há na rua uma árvore
cuja beleza consiste
apenas em existir e
estar ali, ao vento.
[...].
Esta árvore não diz nada
de coisa nenhuma. A metafísica
está no bêbado que lhe atribui
significados além do estar-ali.
[...]. (Milton Rezende)

            E estes:
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
Que ideia tenho eu das cousas?
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério.
O único mistério é haver quem pense no mistério. (Alberto Caeiro)
                                             
                                             
            Como podemos observar, o processo intertextual vai além da incorporação de procedimentos poéticos, envolve o compartilhamento de certa perspectiva sobre a existência, uma ênfase na inutilidade de uma atitude contemplativa no ritmo de vida apressado do nosso tempo. No caso de Milton, tal ênfase se realiza no final irônico do poema, quando o poeta volta “puto para casa” após um carro passar na rua arrancando as folhas da árvore.
            Esse senso de humor cáustico é a segunda natureza da poética de Milton Rezende. Mesmo tematizando questões como a condição do eu-lírico em um mundo totalmente desencantado, adotando muitas vezes uma atitude melancólica irônica, seu pessimismo nunca é da ordem do conformismo, antes é uma forma de nos despertar contras as formas de dessensibilização da vida.  
            Eu não chegaria a essa conclusão sem o precioso estudo de Maria José, sem o seu olhar fraterno e sua inteligência generosa. Muito obrigado.

Anderson Pires da Silva
Juiz de Fora, 2 de novembro de 2014.

             

quarta-feira, 10 de setembro de 2014


SINOPSE

            O autor deste livro realizou, a meu ver, uma curiosa e estranha síntese da inteligência e do obscurantismo. Foi a impressão que me ficou e veio de chofre. Admirei a inteligência e, ao mesmo tempo, o obscurantismo na elaboração do tema que às vezes resvala para o pitoresco, o macabro e as significações ocultas. É um assunto interessante, sem dúvida, mas cheio de dificuldades e armadilhas para o pesquisador mais afoito. No entanto, o autor – não sendo um professor, teórico ou acadêmico – consegue a proeza de contornar os obstáculos com a maestria de um poeta.
            Por que escrever sobre a morte, os cemitérios e as suas paisagens desoladas de cruzes e sepulturas? Simplesmente porque alguém tem que fazê-lo. E há, naturalmente, toda a magia e um grande mistério envolvendo o assunto. Não dá mesmo para fugir dele, contornar, fingir que não existe. Acontece todos os dias e com todas as pessoas: a realidade e a presença da morte estão sempre aí, desafiando os nossos medos e a nossa compreensão da vida.
            E há também a arte tumular, secular maneira de prestar homenagem aos entes queridos que se foram. De onde vem isso? O livro tenta responder a questão e, para tanto, procura diversas abordagens possíveis num elenco de inesgotáveis possibilidades: cultural, artística, histórica, psicológica, sociológica, antropológica, religiosa, filosófica e existencial. Há de tudo aqui, numa mistura multidisciplinar de permanente diálogo entre as vertentes do pensamento.

Por Ferreira Jr.
                         


sábado, 9 de agosto de 2014

PESSOA

          a Alberto Caeiro

Existe em mim
uma pessoa diversa
da pessoa que sou
e embora eu aspire
a segurança de ser
único, esta pessoa
vive em mim como um
delírio de nós dois.
Estabelecemos uma relação
de estranheza e admiração
por esse mistério que
somos nós em nossa ausência
de um rosto próprio.
Mas somos
(apesar de não o saber)
aquilo que podemos ser
e nos fazemos "graves
como convém a um deus
e a um poeta".


do livro "Inventário de Sombras"

sábado, 2 de agosto de 2014

QUESTÃO CRUCIAL 

A noite fria
e a fonte está seca.
Não dá mais e preciso
retroceder ao ponto
de onde parti.

Mas será possível
voltar atrás após o
desmonte de pontes
e das possibilidades
de travessia?

Lá embaixo o rio precário
me dizia que sim e que não
e eu não sabia no que acreditar,
vendo as suas poucas águas
indiferentes e convidativas.

Milton Rezende, in "O Jardim Simultâneo"

quarta-feira, 7 de maio de 2014

PORTAL DA DOR

“porque a morte é a alfândega,
onde toda a vida orgânica há de
pagar um dia o último imposto!”


Cap. I – Da Doença


Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos.

Cap. II – Da Morte

Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença, paramentos religiosos, cinco anúncios na rádio local, translado de até 70 km e locomoção até a morada final.

                                              
Agradecimentos ao Augusto dos Anjos, à D. Ester Fialho e ao Pax Ervália que funciona em frente ao necrotério.



Milton Rezende,  A Sentinela em Fuga e Outras Ausências



CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DO HOMEM

                                                                          (Drummond revisitado)

Os homens
não sabem que são homens
se soubessem, rejeitariam o nome.

O homem
desconhece o outro homem
que vive dentro ou fora dele
e que nunca foi visto.

O homem
e o absurdo de ser homem.

O homem
não tem consciência
do que viria a ser o homem
em sua acepção genérica.

O homem
é o estereótipo do homem.

O homem
é específico como o bicho
pior que isso, é dual
é indivíduo e social.

O homem
não suporta o peso de ser homem.

O homem
não tem importância alguma
para o próprio homem.

O homem
e o desespero de ser homem
não sendo, na ilusão de ser.

Os homens
quando reunidos em sociedade
não formam um todo, sequer uma parte.
Formam apenas uma irmandade
a caminho do nada.

Um homem
não destruirá um outro homem.
A arte, tenho esperança,
humanizará o homem.

Milton Rezende, O Acaso das Manhãs






BALADA DAS DUAS MULHERES NA PRAÇA

Gostaria de saber
quem são aquelas
mulheres da capa
do livro dos Aflitos.
Quem sabe assim
eu pudesse, voltando
ao passado e aos
costumes antigos,
dar a volta no sentido
contrário aos das moças
e perguntar-lhes:
“Quer voltar?”.
E aí, se fosse aceito o pedido,
eu estaria abrigado sob as
saias e a proteção do grande
guarda-chuvas de uma delas,
a do canto.


Milton Rezende, Uma Escada que Deságua no Silêncio