sábado, 19 de maio de 2012

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Milton Rezende é um poeta do desvelamento. Sua principal característica é enfrentar a objetividade ruidosa e dispersa das coisas, da rotina e arrancar do

domingo, 8 de abril de 2012


FLASHES DE UM COTIDIANO


Detenho-me diante da vida.
Não como faz o pedestre
no verde do trânsito, pois
há uma possibilidade
de atravessar ileso.
Detenho-me apenas e por fazê-lo
ela se esvai em minha dúvida.

Detenho-me diante de teus olhos.
Não como faz o oculista
na miopia do paciente, pois
há uma possibilidade
de receitar uns óculos.
Detenho-me somente pelo enigma
e assim perco-te de vista.

Detenho-me diante da morte.
Não como faz o religioso
na partida do irmão, pois
há uma expectativa
de vida eterna.
Detenho-me incrédulo
e por não acreditar
já não temo o vazio.

Detenho-me diante do amor.
Não como faz o homossexual
no convívio social, pois
há uma chance
de vencer os preconceitos.
Detenho-me para deter o medo
e na hesitação amanheço.

Detenho-me diante de mim.
Não como faz o homem
na transparência do espelho, pois
há uma possibilidade
de não se enxergar a si próprio.
Detenho-me sem fugir de mim
e por não saber forjar-me
todo esforço é inútil.

Detenho-me diante do tempo.
Não como faz o adolescente
na festa de debutantes, pois
há uma esperança
de vencer no tempo.
Detenho-me sem alegorias
e por não tê-las
o presente é trágico.

Detenho-me diante do silêncio.
Assim como fazem os animais mesquinhos,
que com seus ruídos soturnos
não quebram o silêncio da noite.
Fazem parte dele, ou antes, o completam.

O Acaso das Manhãs




sábado, 17 de março de 2012

HOME SWEET HOME

Pensei enumerar aqui
todos os meus endereços:
as ruas, as casas, os bairros
o sítio e as cidades mineiras.
Prédios, altos e baixos, áreas
de escape, espaços, córner neutro;
as lojas, os quintais, os bares
e todos os locais de trabalho
que eu freqüentei sem estar ali.
Mas já não me lembrava de
muitos deles – andei tanto e
não saí do estágio em que nasci.
Prefixos de telefones, mapas,
placas de carro, janelas, chaves,
portas, armários, quartos fechados,
as camas e os colchões onde dormi.
Vivi a minha vida sempre assim:
entre quatro paredes pintadas
ora de verde, de branco, de rosa
e infinidades de cores e situações.
Nunca me encontrei em nenhum
desses lugares e o meu lar
não existe sequer em mim.

Uma Escada que Deságua no Silêncio


domingo, 4 de março de 2012

O TRABALHO DOS DIAS




Não posso dizer da vida
e de sua quantia, pois
não tenho como me reportar
a uma experiência anterior.

A vida, em função disto,
talvez seja mais símbolo
e espaço do interdito do
que o vivido propriamente.

Refugia-se em mim, no escuro
do verbo existir, a ausência
de sentido num cotidiano
excessivamente meu e nulo.

Do livro: Inventário de Sombras

sábado, 25 de fevereiro de 2012

ESTATUTO DE ERVÁLIA


(Baseado no poema “A Casa”, de Carlos Drummond de Andrade)


Há de dar para o Santo Cristo,
de poder a poder.
Na praça, a matriz,
de poder a poder.
Ter vista para o Cruzeiro
no alto do Santo Antônio,
de poder a poder.
Casas e árvores
comandando a paisagem.
Há de ter muitos espaços
de portas sempre abertas
ao olho e pisar do povo.
Poeira e barro da estrada
nas salas de visitas.
Rio Turvão nos fundos dos quintais
preservando os segredos
da infância e os cadáveres
de família, sepultados.
Terá um verde pasto
com o Herval escrito
no letreiro conservado,
sintetizando o sonho
do novo e do antigo
afinal reconciliados
nas distâncias encurtadas:
fogão de lenha e internet.
Cidade de muitas lembranças
(“e renda de picumã nos barrotes”),
lavouras em curvas de nível
e indústrias nascendo do esterco.
Ervália erguida
no trabalho coletivo, flores
aliviando o suor
e o cansaço dos homens,
recompensados da sede,
da fome e do frio
e do convívio com os mortos.
E as crianças que brincam
resgatando o passado
no presente infinito.
E que todas as pessoas esperem
o dia seguinte
e a Biquinha
alimente a sede
dos projetos futuros.
Ervália há de ser tudo isso,
mais o que sonhamos,
mais os poemas dormidos,
mais a água da chuva nos vidros,
mais os desenhos das nuvens,
mais tudo o que brota
deste solo vermelho e
um sol filtrado através das folhas
de bananeiras e das cercas de arame farpado.
E que todos os ervalenses
escrevam a história de uma terra
que seja a casa de todos,
do contrário não será nunca
a nossa cidade que somos
e que amamos ser,
na distância do encontro
e no silêncio (Careço) das almas.

Milton Rezende

sábado, 31 de dezembro de 2011

Mensagens

PASSAGEM DO ANO
-
Por Carlos Drummond de Andrade
-
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
-
O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
-
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
-
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
-
Surge a manhã de um novo ano.
-
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
-
(Do livro A rosa do povo, Editora Record, 1984)